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Creepypasta | A Babá e o Palhaço

Eram quase sete horas da noite quando a jovem Mandy chegou à casa da família Mendez, para a qual costumava prestar serviços como babá das crianças gêmeas Mary e Allan. Já fazia algum tempo que não era chamada, mas ao vê-la, as crianças fizeram festa e não paravam de pular em volta de Mandy enquanto recebia instruções da Sra. Mendez. Antes de saírem para um jantar beneficente no centro da cidade, o Sr. Mendez pediu a ela que ficasse por perto quando as crianças fossem colocadas na cama, porque elas estavam tendo pesadelos há algumas semanas e ficavam apavoradas, achando que havia alguém no quarto que dividiam.

Naquela noite, assim como em todas as outras noites que passava com eles, Mandy ficou com os gêmeos até eles pegarem no sono e então saiu do quarto, deixando a porta um pouco aberta para que pudesse os escutar caso tivessem aqueles pesadelos sobre os quais o Sr. Mendez tinha alertado. Passados alguns minutos, notando que as crianças dormiam tranquilamente, resolveu fazer um lanche na cozinha, mas mal tinha terminado de preparar um sanduíche quando escutou as crianças gritarem apavoradas.

Anna deixou tudo sobre o balcão e correu escada acima, acendeu a luz do quarto antes de entrar e então encontrou a pequena Mary na cama de Allan. Os dois choravam apavorados como se tivessem visto um monstro. A babá notou que a janela estava aberta, mas como era uma época de ventos fortes naquela parte da cidade, não era incomum que as persianas não resistissem a uma forte lufada e suas folhas se abrissem. Acreditou que isso seria motivo o suficiente para assustar as crianças, mesmo que elas estivessem falando sobre um palhaço e outros elementos do universo infantil, para os quais ela não deu muita atenção.

Com muito custo, Anna conseguiu acalmar as crianças e as colocar para dormir novamente,  mas não sem antes de prometer que ficaria por perto. Fechou e trancou muito bem as janelas antes de deixar o quarto com a porta aberta. Desta vez decidiu ficar no quarto ao lado, pelo menos até ter certeza de que os dois estariam dormindo em sono profundo.

O quarto vizinho era um quarto de hóspedes com televisão e alguns imóveis, incluindo uma antiga cadeira de balanço na qual ela mesma costumava ficar sentada, lendo algum livro ou mexendo no celular. Por isso, quando entrou no quarto e acendeu a luz, levou um susto ao ver que a cadeira estava ocupada pelo que julgou ser um boneco em tamanho natural, vestido e pintado como um palhaço. Ele estava jogado sobre a cadeira, completamente imóvel com os braços soltos ao longo do corpo, as pernas estiradas, com os calcanhares dos grandes sapatos apoiados no chão e os olhos fechados.

- Não é a toa que os gêmeos andam tendo pesadelos! – Mandy resmungou para si mesma, passado aquele pequeno susto inicial. Como não era uma dessas pessoas que tem medo de palhaços, sentou-se tranquilamente na cama e sacou o celular que estava em seu bolso.

Durante muitos minutos, somente vez ou outra seus olhos capturavam a imagem do palhaço e nesses momentos ela achava que sua mente estava lhe pregando peças ao acreditar que tinha visto o peito do boneco se mover, como se ele estivesse respirando lentamente. Mas, começou a ficar mesmo incomodada quando veio aquela sensação de que não estava sozinha naquele quarto. Ainda que tentasse ignorar, aquele sentimento começou a ficar cada vez mais forte, de forma que ela evitava tirar os olhos da tela do aparelho celular, com medo de ver algo que não deveria, por mais ridículo que isso pudesse parecer.

Porém, não poderia passar o resto da noite com o nariz enfiado naquela tela. Quando ergueu a cabeça, seus olhos foram atraídos diretamente para a imagem do palhaço e o que viu fez com que desse um pulo da cama. Os olhos do boneco agora estavam abertos e ele parecia estar a encarando com aquele sorriso sinistro e vermelho pintado sobre seu rosto coberto por tinta branca.

Não gritou, mas quando deu por si, a babá já estava de pé próximo à porta do quarto, sem tirar os olhos daquele maldito boneco – que agora estava imóvel, como deveria ser. Tencionou sair do quarto, mas então se lembrou de que estava quase na hora prevista para o casal voltar para casa e não seria legal se eles a pegassem fazendo qualquer coisa além de guardar o sono das crianças.  Porém, como já trabalhava há muito anos para aquela família e nunca havia estado numa situação daquelas, resolveu para o Sr. Mendez, que atendeu prontamente. Não pensou novamente antes de pedir permissão para ficar no andar debaixo ou ao menos tirar aquele palhaço do quarto onde normalmente costumava ficar quando estava cuidando deles.

- Sr. Mendez, me desculpe, mas este é o boneco mais assustador que já vi em minha vida! Não é a toa que os gêmeos andam tendo pesadelos. – disse Mandy ao telefone. O Sr. Mendez pareceu não entender do que ela falava por um momento e então ela repetiu, falando sobre o boneco palhaço no quarto de hóspedes. Então ouviu algumas conversas ao fundo do Sr. Mendez com sua esposa, que pareceu ficar histérica e assim continuar quando o Sr. Mendez voltou à linha.

- Mandy, escute bem o que vou dizer. Pegue as crianças imediatamente, vá para o vizinho da frente e chame a polícia. Já estamos a caminho de casa. – o Sr. Mendez pediu, elevando o tom de voz e então a ligação foi encerrada.

Mandy nunca tinha escutado o Sr. Mendez levantar a voz, muito menos ouvido a sua esposa tão desesperada e talvez por isso seu coração tenha disparado, em alerta, assim como suas pernas que a levaram rapidamente até a porta do quarto dos gêmeos que dormiam tranquilamente. Por um minuto ela titubeou sobre a ordem que tinha recebido e então ligou para a mãe dos meninos, como se quisesse ouvir que aquilo era uma brincadeira de mau gosto, uma peça que estavam pregando nela como naqueles vídeos que assistia pela televisão. Mas o que ouviu, fez seu sangue gelar ao mesmo tempo em que sentia cada fibra do seu coração se arrebentar.

- Mandy, pelo amor de Deus, saia daí agora mesmo! Nós não temos nenhum boneco vestido de palhaço!


Obs.: Conto baseado na lenda urbana norte-americana "We don't have any clown statue"/ "The Clown Statue". Caso vá reproduzir este texto em algum lugar, favor colocar link para este post.

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