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Vale a pena assistir | Mas Não Livrai-nos do Mal (1971)

Uma coisa eu posso dizer: se você gosta de filmes do tipo cult, com aquela dose de terror lascivamente herege, blasfemo e subliminar, você precisa assistir o francês Mas Não Livrai-nos do Mal.



Por sinal, eu confesso que tive que assistir  ao filme duas vezes para entender bem o que estava vendo e poder dar o meu parecer. Na primeira vez, eu confesso que não entendi nada, mas por algum motivo ele ficou em minha cabeça. Para a minha sorte, eu assisti novamente e então eu entendi porque ele ainda hoje é considerado um dos grandes filmes do cinema francês, único e perturbador em sua essência.

Não, Mas Não Livrai-nos do Mal não é um filme sobre freiras demoníacas ou possuídas. Não é nada como O Convento e nem há uma irmã Valak, ainda que algumas cenas do filme se passem dentro de um convento onde duas garotas, Anne (Jeanne Goupil) e Lore (Catherine Wagener), estudam em regime de internato.

As duas garotas que se encontram no auge da puberdade, tornam-se melhores amigas e cansadas de suas vidinhas sem graça e cheias de regras, resolvem dar as costas a Deus e adorar o capiroto. É, isso mesmo que você leu, meu caro leitor.

O ritual de “iniciação”, um desses pactos de sangue idealizado pela jovem Anne após ela ter lido Os Cantos de Maldoror junto com sua amiga, acontece durante as férias de verão. Mas a esta altura do campeonato elas já tinham aprontado diversas malvadezas. Durante o filme é visível que os atos mais cruéis ficam por conta de Anne e os mais lascivos, por conta de Lore. E é neste ponto que o filme pode causar grande desconforto para os mais conservadores, afinal, ver meninas adolescentes seduzindo marmanjões, matando passarinhos, bebendo e fumando e frequentando a missa aos domingos, não é algo que todo conservador gostaria de ver. Por sinal, a censura do filme é 16 anos.

Mas e o capiroto? A meu ver, o pacto de sangue que realizam durante aquele ritual satânico, blasfemo, nada mais é do que uma forma ritualística para firmar uma sólida aliança entre as duas amigas. Na verdade, o capiroto, bom, ele é utilizado – mais uma vez – como alegoria para a liberdade a qual as duas visivelmente almejam.

Outro ponto que me também me deixou intrigada – e o que me fez dar uma nova chance à produção – foram os poemas recitados por Anne e Lore no final do filme, durante uma apresentação dos alunos no teatro da escola. O primeiro trata-se de um quase desconhecido poema de Jules LaForgue (Complainte du pauvre jeune homme) e na sequência, para o assombro de todas as irmãs presentes, elas emendam dois poemas de Charles Baudelaire (A Morte dos Amantes e A Viagem, respectivamente) que não haviam sido declamados durante os ensaios na escola.

Ao término do recital, as duas amigas fogem juntas das consequências pelas maldades e crimes cometidos. Fogem de tal forma que jamais poderão ser separadas e condenadas por terem feito algo que não tinham em mente, algo que fugiu de seus planos, porém que foi feito sem nenhum remorso. E embalado por uma música com jeitão de hino religioso, o filme chega ao seu fim com as duas garotas alcançando a liberdade que tanto almejaram, juntas para sempre.


O filme Mas Não Livrai-nos do Mal (Mais ne nous délivrez pas du mal) foi banido na França na época de sua estreia por ser considerado blasfemo. Sem dúvidas, o alto teor sexual envolvendo as duas amigas adolescentes (as atrizes já estavam na casa dos 20 anos na época das filmagens, mas realmente aparentavam ser bem mais novas) que por três vezes escapam de serem estupradas em frente às câmeras e também a conotação homossexual que a relação das duas jovens adquire ao longo do filme, devem ter contribuindo para que o filme fosse proibido na década de 70.

Seja como for, não é um filme assustador, mas sem dúvidas é um filme incrível, bastante mórbido e satânico do começo ao fim e que pode ser considerado depravado e um culto à imoralidade por algumas pessoas.

Apenas um adendo: se você não gostou ou não entendeu nada do mais recente A Bruxa, pode ser que não goste de Mas Não Livrai-nos do Mal, onde tudo fica tão implícito e sujeito a interpretação. Agora se você gosta de filmes mais complexos, sem grandes cenas de ação, sem explosões e notáveis efeitos especiais, este é um bom filme para você assistir.

Curiosidade: O filme foi (vagamente) baseado no caso Parker-Hulme, um caso de homicídio real acontecido em 1954 na Nova Zelândia, no qual o filme Almas Gêmeas (1994) também foi baseado.