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La Fée Verte: Uma breve introdução à história do absinto

Olá, leitores! Hoje eu resolvi fazer algo diferente e trazer a vocês um resumo da história do uso e consumo do absinto, bebida que por muito tempo foi associada aos seus efeitos alucinógenos e que virou sensação durante a belle époque, principalmente na Europa. Vem comigo que eu conto como é que o chá de losna virou a bebida que faria qualquer um ver fadas verdes.


O uso medicinal da erva absinto foi documentado pela primeira vez no Papiro Ebers, um dos mais antigos tratados médicos, escrito no Antigo Egito em meados de 1500 a.C. (acredita-se que este papiro seja uma cópia dos ainda mais antigos livros de Thoth (3500 a.C)).

A erva conhecida como absinto, losna ou Artemisia absinthium, caracterizada pelo seu gosto amargo, é mencionada várias vezes também no Velho Testamento. No contexto bíblico, a planta representava maldições, calamidades ou injustiça. No livro do Apocalipse, o equivalente grego ho apsinthos é usado como um nome para uma estrela que caiu nas águas e as tornou amargas.

O matemático e filósofo grego Pitágoras de Samos (570 - 475 a.C), recomendou folhas de absinto encharcadas de vinho para aliviar as dores do parto; Hipócrates (460 - 377 a.C) usou extratos desta erva para o tratamento de dor menstrual e reumatismo. Na Idade Média, a losna foi usada como purgante e vermífugo e depois virou uma espécie de remédio para todos os tipos de doenças. Ah, essa Idade Média! Foi nesse período que o absinto também ficou conhecido como "a erva de Marte" por suas propriedades medicinais.

Somente no século XVI que a erva passou a ser usada no preparo de bebidas espirituosas. Por exemplo, o Purl do tempo dos Tudors era uma bebida que misturava cerveja quente com a erva absinto. De qualquer forma, supostamente foi o médico francês Dr.Pierre Ordinaire foi o criador da receita clássica da bebida que ficou popularmente conhecida como Absinto. Ele havia fugido da Revolução Francesa e se estabelecido em Val-de-Travers, uma cidade no oeste da Suíça, que virou um importante centro de produção de absinto. Porém, foi na pequena cidade de Couvet que o elixir com graduação alcoólica de 68% ganhou o apelido de fée verte (fada verde).


Após a morte do Dr. Pierre Ordinaire, a receita caiu nas mãos de Henri-Louis Pernod, que começou a comercializar o absinto em 1797. Em 1805, ele se mudou para Pontarlier, França, para servir ao mercado francês. Nessa época, sua destilaria conseguiria produzir até 16 litros da bebida por dia. Porém, após a conquista da Argélia pela França, aumentou o interesse em bebidas espirituosas a base de anis, assim como a promoção e publicidade destas. Em 1896, a destilaria de Pernod passou a produzir cerca de 125.000 litros por dia.

A fada verde estava em todos os lugares. Só na França, o consumo anual de absinto aumentou 15 vezes entre 1875 e 1913. Paralelamente a este consumo em massa e suas consequências, movimentos antialcoolismo, de vinicultores e também de religiosos, apelavam à proibição do absinto. Muitos assassinatos e outros atos de violência foram atribuídos à influência da bebida absinto (e sobre elas falarei em outra oportunidade).

Além disso, a comunidade médica daquela época havia desenvolvido um estudo sobre os efeitos colaterais do excesso de consumo de absinto. Tal estudo indicava que o absinto poderia causar problemas de julgamento bastante sérios e até mesmo tornar uma pessoa completamente insana. Não o bastante, poderiam causar problemas físicos, até mesmo em futuras gerações.

Sim, isso mesmo, meu caro leitor, eles acreditavam que o problema não era tanto o álcool em si ou a quantidade de álcool consumida. Eles acreditavam que o problema era o ingrediente principal, a erva, o absinto e que quanto mais baixa a sua qualidade, maiores seriam os efeitos colaterais.

Pois bem, com estudos científicos em mãos, vinicultores muito bravos com a queda nas vendas e religiosos pregando sobre os males do absinto, iniciou-se uma verdadeira cruzada de proibição da bebida.

Os primeiros países a proibirem a comercialização do absinto foram o Brasil, a Bélgica, a Suíça, os Estados Unidos e, na sequência, a Itália.

Com o apoio do Movimento da Temperança – movimento social contra bebidas alcoólicas – que conseguiu atrair a atenção de quase toda a França através de programas educacionais e campanhas de conscientização pública e também devido à nítida preocupação com os soldados que sucumbiam demasiadamente à bebida, enfraquecendo assim o exército, o governo francês proibiu o absinto em 1915.

Daí para frente foi questão de tempo para os outros países também aderirem ao movimento de proibição da bebida, exceto pela Dinamarca, Espanha, Inglaterra e Portugal, que jamais baniram a comercialização ou produção do absinto.

Mas, quer dizer então que o absinto é uma bebida comercializada ilegalmente?

Não. Depois de ter sido banida da maioria dos países por quase um século, a bebida verde esmeralda começou a ser regularizada em 1988 e aos poucos voltou ser comercializada em todos os países, retomando os mitos e lendas de seus efeitos psicotrópicos e afrodisíacos de outras épocas, de forma bem menos velada, mas não menos misteriosa.