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A história de Ed Gein, o carniceiro de Plainfield

Talvez seja difícil imaginar que as histórias de personagens como Norman Bates ("Psicose" e "Bates Motel"), Dr. Oliver Thredson ("American Horror Story") e Leatherface ("O Massacre da Serra Elétrica") foram baseadas em um assassino da vida real. Mas, foi isso mesmo o que aconteceu. Acreditem ou não, esses personagens foram baseados na história, comportamento e crimes cometidos por um único homem chamado Edward Theodore Gein, mais conhecido como Ed Gein ou o Carniceiro de Plainfield.

A infância e a adolescência de Ed Gein

Ed Gein
Ed Gein foi o filho caçula do casal George e Augusta Wilhelmine Lehrke Gein e tinha apenas mais um irmão chamado Henry. Os dois irmãos viveram seus primeiros anos no condado de La Crosse até que Augusta – então dona de uma mercearia – conseguiu juntar dinheiro o suficiente para comprar uma fazenda nos arredores de Plainfield, uma pequena cidade no Estado de Wisconsin, EUA.

Desde a mudança para a fazenda, Ed e Henry passaram a ter uma vida bastante isolada. Sua mãe, cristã fervorosa, os desencorajava a ter uma vida social, temendo que eles fossem influenciados por pessoas que não era adeptas do luteranismo como ela. Todos os dias, após as aulas, os dois irmãos eram obrigados a sentar e escutar os sermões de Augusta e ela tinha uma visão bastante peculiar do mundo. Ela acreditava que todas as mulheres – inclusive ela – eram nada mais do que prostitutas e instrumentos do diabo. Por isso, os irmãos deveriam refrear seus impulsos "animalescos" e ficar longe das garotas. Também os advertia sobre os perigos do alcoolismo e do mundo "lá fora". Basicamente, o único lugar seguro era dentro da fazenda. Na escola, Ed Gein era descrito como uma criança tímida, vítima de bullying por causa do seus maneirismos efeminados e risadas sem aparente motivo.

Em 1940, George, que nunca havia opinado na criação dos filhos, foi vítima de um infarto fulminante e faleceu. Na época, Ed Gein tinha 34 anos e ainda vivia com seu irmão e com sua mãe na fazenda próxima a Plainfield. Tanto ele, quanto seu irmão, não tinham ido para a universidade e então começaram a trabalhar fazendo pequenos serviços temporários para ajudar no orçamento. É dito que Ed Gein gostava de tomar conta das crianças dos seus vizinhos, parecia se dar melhor com elas do que com pessoas da sua idade. Também é sabido que ele era extremamente apegado à sua mãe, o que já não acontecia com seu irmão mais velho, que após a morte do pai começou a questionar as visões de mundo de Augusta e o relacionamento que ela tinha com seu irmão.

Mas as divergências não durariam muito. Em 16 de maio de 1944, Ed Gein e seu irmão saíram juntos para apagar um incêndio próximo às delimitações da fazenda. De acordo com os registros policiais, os irmãos acabaram se perdendo um do outro no cair da noite. A polícia foi chamada e Henry foi registrado como desaparecido. Seu corpo sem vida foi encontrado no dia seguinte, próximo ao local do incêndio, porém em uma área que não havia pegado fogo. Havia contusões em sua cabeça, mas o legista confirmou que ele havia morrido asfixiado.

Depois da morte de seu irmão, Ed Gein continuou morando com Augusta na casa da fazenda. Ainda fazia pequenos trabalhos para ajudar no orçamento até o momento em que a saúde de sua mãe começou a ficar bastante debilitada. Apesar de toda a devoção de seu filho, que nunca tivera outra mulher em sua vida, ela faleceu em 29 de dezembro de 1945. Nesse ponto, eu tenho certeza que Ed Gein "surtou". Como ele mesmo declarou na época "estava completamente sozinho no mundo", um mundo terrível e cheio de pecados que sua mãe tinha pintado durante toda a vida para ele.

Tentando preservar as memórias de sua mãe, ele lacrou diversos cômodos da casa para que permanecessem intocados, como sua mãe havia deixado. Era o caso da sala de estar, do andar superior da casa, do quarto onde ela dormia e de uma sala um pouco maior onde ela recebia visitas. Ele passou a viver basicamente em um pequeno quarto próximo à cozinha e a um banheiro. Começou a se interessar por livros de anatomia humana e com relatos dos terrores da 2ª Guerra Mundial.

Um cenário digno de um pesadelo

Até que em 16 de novembro de 1957, Bernice C. Worden, dona de uma loja de ferragens, foi dada como desaparecida. A polícia logo suspeitou de Ed Gein porque, de acordo com um registro de vendas encontrado na loja, Bernice havia vendido a ele um galão de anticongelante na manhã em que desapareceu. Ele havia sido o último cliente que ela havia atendido antes de desaparecer.

No dia seguinte, uma equipe de policiais lideradas por Art Schley seguiu até a fazenda. Ed Gein não estava em casa, mas Art já estava em posse de um mandado de busca na propriedade. Imagino que eles não estavam preparados para se deparar com o cenário pavoroso que encontraram.

Cozinha da casa de Ed Gein
O corpo decapitado de Bernice C. Worden estava preso de ponta-cabeça, com as mãos amarradas com cordas e os pés presos a uma barra de ferro. Seus órgãos vitais haviam sido retirados e colocados dentro da geladeira; a cabeça foi encontrada em um saco de estopa.

Como se não bastasse, continuando a vasculhar o único e caótico quarto que Ed Gein usava, encontraram a cabeça de Mary Hogan, outra mulher que havia desaparecido há dois anos atrás e mais toda uma parafernália feita com pele ou ossos humanos como, por exemplo, um cinto feito com mamilos femininos, um abajur coberto com a pele de rostos humanos, cadeiras revestidas com pele humana, talheres com cabos de ossos, tigelas feitas com a parte superior de crânios, máscaras de pele de rostos femininos, luvas e meias feitas de pele humana entre outros inúmeros "artigos" de uso pessoal e vestuário.

Então, meu caro leitor, está explicado de onde surgiu a inspiração para tantos personagens tão perturbados, não?

O Desfecho

Ed Gein foi preso e durante o interrogatório, confessou que havia feito ao menos 40 visitas noturnas a três cemitérios locais entre os anos de 1947 e 1952 com o intuito de exumar os corpos que ele levaria para a sua casa. Ele escolhia corpos recém sepultados de mulheres de meia idade que, em sua mente doentia, assemelhavam-se ao de sua querida mamãe. Inclusive, ele declarou que após a morte de sua mãe havia decidido confeccionar uma espécie de macacão feito com a pele do corpo dessas mulheres para que pudesse o vestir e assim, talvez, matar um pouco da saudades que tinha do conforto que sua mãe proporcionava para ele.

O pior é que ele não parecia realmente se dar conta de como o que ele havia feito era incrivelmente hediondo. Por sinal, quando foi questionado se ele havia tido relações sexuais com aqueles cadáveres, ele negou prontamente e acrescentou que "eles cheiravam muito mal". Durante o interrogatório ele também afirmou que havia matado Bernice C. Worden e Mary Hogan cada uma com um tiro na cabeça antes de as eviscerar e decapitar.

Em novembro de 1957,  ele foi atestado como mentalmente incapaz de enfrentar um julgamento e foi internado em um hospital psiquiátrico para criminosos insanos em Wisconsin. Somente em 1968, quando Ed Gein tinha 62 anos de idade, ele foi considerado apto para ir à julgamento por duplo homicídio. O julgamento durou uma semana e ele foi considerado inocente das acusações de homicídio doloso de Bernice C. Worden e Mary Hogan, porque já havia sido declarado mentalmente incapaz. Sendo assim, foi sentenciado a passar o resto de sua vida em um hospital psiquiátrico.

Em 26 de junho de 1984, o carniceiro de Plainfield  – como era chamado pela mídia na época dos crimes – morreu devido a complicações respiratórias e cardíacas provocadas por um câncer. Ele foi enterrado ao lado de sua mãe no cemitério de Plainfield e ao longo dos anos, sua lápide foi vandalizada diversas vezes até que no ano 2000, ela foi completamente roubada. Posteriormente foi encontrada em Seattle pela polícia e atualmente está em exposição num museu de Wisconsin, no Condado de Waushara.

Casa da família Gein antes de ser incendiada e reduzida a pó.

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