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Marie Laveau: A Rainha do Vodu de Nova Orleans

Quem foi Marie Laveau? Espere! Não é aquela personagem de American Horror Story? Sim, meu leitor, porém neste artigo trago para vocês um pouco da história das verdadeiras Marie Laveau, também conhecidas como as Rainhas vodu de Nova Orleans.


Nascimento, casamento e filhos

Marie Laveau nasceu em 1794 na cidade americana de Nova Orleans, filha de crioulos livres (que não viviam como escravos). Em 4 de agosto de 1819, aos 25 anos, Marie casou-se com Jacques Paris, um rapaz negro que havia se refugiado em Nova Orleans após fugir da brutal Revolução Haitiana que havia acontecido alguns bons anos antes, com quem já tinha um filha. Antes dele falecer por motivos desconhecidos, eles tiveram mais uma filha. Ambas desapareceram dos registros mais ou menos na época da morte de Jacques. Sendo assim, o destino delas é desconhecido, porém acredito que elas devem ter falecido, vítimas de qualquer uma daquelas inúmeras epidemias de doenças que abatiam tantas pessoas naquela época. Sete anos após a morte de seu primeiro marido, Marie Laveau teve uma filha com seu amante, um homem branco de nome Christophe Dominick Duminy de Glapion, a quem deu o nome de Marie Euchariste Eloise Laveau, que também se tornaria uma Rainha no Vodu, assim como a sua mãe. A partir de então, temos Marie Laveau I e Marie Laveau II.

A Fama

Marie Laveau
Durante o século 19, muitos repórteres acusaram as Laveaus de feitiçaria, heresia e diziam até que elas dançavam nuas com cobras. Marie Laveau I teria curado pessoas vítimas de febre amarela; sua filha, teria hipnotizado policiais que tentavam impedir suas apresentações teatrais que nada mais eram do que uma bela representação da cultura Crioula, com tudo o que havia direito, inclusive com um pouco de mágica para entreter o público.

Diversas fontes descrevem as mulheres Laveau como sendo mulheres extremamente confiantes e cá para nós, isso, naquela época, ainda mais se tratando de uma mulher crioula, era realmente algo incomum. Enfrentaram os tribunais algumas vezes, acusadas de crimes que não cometeram e ainda que fossem inocentadas, toda a população branca de Nova Orleans que sabia que as Laveaus tinham sido as maiores responsáveis por manter o voduísmo em "alta" na cidade, as tinham como culpadas por sumiços de maridos e mortes inexplicáveis.

O mais engraçado de toda a história é que essas mesmas senhoras distintas que as acusavam, também eram aquelas que não pensavam duas vezes antes de torrar uma quantia razoável de dinheiro em amuletos que as Laveau confeccionavam e que diziam trazer boa sorte ou qualquer coisa que estivessem procurando.

As Laveaus também ficaram conhecidas por desafiarem a Igreja e a lei, ajudando muitos escravos fugirem pelos túneis subterrâneos da cidade e estendendo a mão para aqueles que já eram livres, mas precisavam se unir e combater os falsos julgamentos.

Marie Laveau I, trabalhava como cabeleireira das damas da alta sociedade e prestava atenção nas confissões de suas clientes, muitas da alta sociedade. Muitos escravos ou empregados que trabalhavam nas casas e plantações da Louisiana foram ajudados por Marie Laveau, que em troca apenas exigia ter algumas informações sobre seus "patrões", como casos extraconjugais ou qualquer coisa que pudesse ser usado para os chantagear. Sem dúvidas, Marie Laveau sabia onde atingir qualquer pessoa que atravessasse o seu caminho ou de seus familiares, amigos ou comunidade.

A Morte das Marie Laveau

Túmulo de Marie Laveau
Realmente não se sabe qual foi o destino de Marie Laveau II, a filha. Alguns pesquisadores afirmam que ela desapareceu dos registros no início de 1877.  Em 16 de junho de 1881, Marie Laveau I, morreu enquanto dormia em sua residência na St. Ann Street de Nova Orleans, onde viveu por mais de meio século. De acordo com Raymond J. Martinez em seu livro "Mysterious Marie Laveau, Voodoo Queen, and Folk Tales Along the Mississippi" , ela renunciou ao voduísmo nos últimos dias de sua vida e voltou a ser a católica que era antes de conhecer Jacques Paris (que a introduziu ao culto). Seu funeral foi feito de acordo com os ritos católicos, sem qualquer sinal do voduísmo e muito diferente de todos os funerais que ela mesma havia conduzido durante sua vida.

Ela foi sepultada num jazigo da família Glapion, no cemitério St. Louis Nº1. Seu túmulo é facilmente reconhecido pelas sequências de três "X" que eram desenhados por pessoas que visitavam o seu túmulo e que faziam pedidos à ela. Visitavam, porque o cemitério foi fechado para visitações após uma série de vandalismos em diversos túmulos, inclusive contra o jazigo de Marie Laveau – que foi pintado com tinta látex rosa na calada da noite.

Caso você tenha interesse em conhecer mais sobre a história do Vodu de Nova Orleans, é recomendável que procure por publicações estrangeiras (infelizmente, eu não localizei uma publicação sequer em língua portuguesa que eu pudesse levar a sério. Se ela existe, por favor, me contem qual é.) e até mesmo uma visita ao New Orleans History Voodoo Museum, para maior entendimento.

Por fim, importante dizer que muito o que se sabe sobre Marie Laveau I, são informações que aparentemente foram registradas da forma que ela queria que fosse – e isso não quer dizer que são completamente verídicas.

Sem dúvidas, Marie Laveau está morta e enterrada, mas sua história, sua memória e seu espírito ainda estão vivos e podem ser sentidos, vistos ou percebidos nas principais ruas e avenidas de Nova Orleans.


Bibliografia

MARTINEZ, Raymond J.  Mysterious Marie Laveau, Voodoo Queen, and Folk Tales Along the Mississippi. Quid Pro Books, 2013.
BLASSINGAME, John W.  Black New Orleans, 1860-1880. University of Chicago Press, 2008.
WARD, Martha. Voodoo Queen: The Spirited Lives of Marie Laveau. Univ. Press of Mississippi, 2009.


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