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O sanatório que inspirou o Arkham de Lovecraft

De acordo com pesquisadores literários e pelo que a história indica, o Sanatório da cidade fictícia Arkham, criada por H.P. Lovecraft foi inspirado em um hospital psiquiátrico modelo que existiu na cidade de Danvers, Massachusetts, durante aproximadamente um século: o Danvers State Hospital, que também era conhecido como Danvers State Insane Asylum

Danvers State Hospital, 1893. / Fonte: Wikimedia Commons. Clique para ver em tamanho maior.

História e Estrutura

O Danvers State Hospital, foi erguido em uma região rural conhecida como Hathorne Hill. Hathorne. Este sobrenome soa familiar? Se você é um curioso ou pesquisador sobre as Bruxas de Salem, há de saber que Hathorne era o sobrenome do juiz que inquiriu e condenou todas aquelas pessoas inocentes, alegando que eram praticantes de magia. Hathorne Hill tem esse nome porque era o local onde ficava localizada a residência do juiz John Hathorne e de sua família durante o período dos julgamentos. Inclusive, antes de chamar-se Danvers, a cidade era conhecida como Salem Village (não confundir com a cidade Salem), onde morava a maioria dos acusados de bruxaria.

Quando o terreno foi comprado pelo Estado para abrigar o novo hospital, ele pertencia a um próspero fazendeiro de nome Francis Dodge e não mais a família Hathorne/Hawthorne.

O complexo hospitalar foi inaugurado em 1875 para dar conta de uma “epidemia” de doenças mentais que aparentemente havia se abatido sobre a população após a Guerra Civil.

A construção do complexo Danvers State Hospital foi supervisionada pelo arquiteto Nathaniel J. Bradlee (1829-1888). O prédio erigido com arquitetura gótica vitoriana abrigava uma estrutura conhecida como planta Kirkbride, criado pelo Dr. Thomas Story Kirkbride, que apostava em tratamentos mais humanizados para os pacientes que estavam com suas faculdades mentais abaladas.

Planta do Danvers State Hospital. Clique para ver em tamanho maior.

Inicialmente, o complexo hospitalar tinha um edifício central e oito alas, sendo quatro de cada lado do edifício principal. Nos anos seguintes foram construídos outros prédios ao redor do complexo Kirkbride, como os que hospedavam os enfermeiros e enfermeiras), outro para tratar de pacientes tuberculosos, além de mais um centro hospitalar chamado de Bonner Medical Building. Uma rede de túneis subterrâneos interligava todo os prédios desse enorme complexo hospitalar tido como modelo.

Terapia e Pacientes

Assim como o Sanatório Arkham, o Danvers State Hospital tinha uma política bastante humanitária. Os pacientes recebiam terapias progressivas em um ambiente acolhedor, limpo, bem iluminado e com ventilação adequada para o restabelecimento de suas faculdades mentais.

Eram incentivados a participarem de terapias ocupacionais, a trabalhar nos jardins e na padaria da instituição quando não estavam fazendo atividades físicas ao ar livre ou tomando banhos de sol dentro ou fora do complexo Kirkbride.

Alguns pacientes chamados de “incontroláveis” eram mantidos em alas isoladas dos outros pacientes (ala A e J). Na verdade, eram pacientes que haviam cometido algum crime durante algum surto psicótico, os popularmente chamados de “criminosos insanos” e também os “mentalmente incapazes” de entender o crime que haviam cometido. Nesse grupo de pacientes mais difíceis de controlar também se encontravam os dependentes de drogas e outras substâncias químicas.

Começo da decadência

De acordo com relatórios enviados pelos curadores do hospital para as autoridades responsáveis, a partir de 1920 o hospital começou a sofrer com um problema de superlotação e não demorou para que o Danvers se tornasse o pesadelo de qualquer administrador ou profissional da área da saúde.

O hospital, que inicialmente recebia apenas algumas dezenas ou centenas de pacientes por ano, a partir de 1930 começou a receber mais de mil novos pacientes por ano, o que estava muito além da capacidade física do hospital. Não havia verbas o suficiente para contratar mais enfermeiros, sendo assim já não tinham como dar toda a atenção e acolhida necessária para todo paciente recém-chegado.

Apesar de tentarem ao máximo manter as terapias mais modernas e humanizadas para o tratamento dos pacientes, isso acabou se tornando quase impossível com a superlotação.

Os pacientes mais violentos e com comportamento mais destrutivo precisavam de atenção redobrada, mas, não havia pessoal o suficiente. Então eles começaram a ser controlados em camisas de força e camas com amarras. De acordo com o relatório, o tratamento desses pacientes incluía terapia ocupacional e formas sedativas de hidroterapia. Algumas notícias vinculadas em jornais locais daquela época afirmavam que terapia de eletrochoque e a lobotomia também passaram a fazer parte do programa de tratamento para a grande maioria dos pacientes daquele hospital.

Em 1939 eram 2.360 internos e no ano seguinte, o relatório apontou que desses 2.360 pacientes, 278 vieram a óbito dentro da instituição.

O fim

Os incontáveis e incansáveis apelos dos administradores por mais verbas para contratar mais profissionais, para ampliar as alas e substituir equipamentos obsoletos e até mesmo o gerador de energia que poderia parar de funcionar a qualquer momento, acabaram dando em nada. Logo o Danvers State Hospital entrou em colapso, o edifício em si começou a desmoronar por falta de manutenção. Salas e alas inteiras começaram a ser lacradas e seus pacientes transferidos para junto de outros em outras alas.

Depois de inúmeras denúncias de familiares de pacientes e de jornalistas, o complexo Kirkbride foi fechado em 1989. Todos os pacientes remanescentes foram transferidos para o Bonner Medical Building. Em 1992, o Estado anunciou que todas as instalações do complexo hospitalar estavam definitivamente fechadas.

Era o fim do Danvers State Hospital, mas não das histórias de terror que aquelas paredes ainda testemunhariam. O complexo ficou completamente abandonado por 13 anos após o seu fechamento e centenas de curiosos e investigadores de fenômenos paranormais foram presos ao tentarem passar pelos portões guardados dia e noite por vigilantes. Com sorte, algumas poucas pessoas autorizadas conseguiram registrar em vídeo e em fotos a decadência daquele que tinha sido um dos melhores hospitais psiquiátricos em sua época de ouro. E há alguns vídeos e fotos espalhados pela internet que mostram um lado mais sombrio e inexplicável daquilo que foi deixado para trás e normalmente é invisível aos olhos.

O Danvers State Hospital também serviu como cenário para alguns filmes como Home Before Dark de 1958, com cenas externas e internas do edifício. O último filme a ser gravado nas ruínas do hospital foi o Session 9, que estreou em 2001 e que dá uma boa noção o que anos de abandono e alguns vandalismos fizeram com tal magnífico complexo.

Atualmente, apenas uma pequena porção do que o um dia foi o complexo Kirkbride ainda existe. O restante dos edifícios e construções foi demolida em 2005. No local foi construído um complexo com apartamentos luxuosos e uma grande piscina para a alegria dos novos moradores.

Caso esteja passando por Massachusetts e queira ver o que restou do antigo Danvers State Hospital, o atual condomínio Halstead Danvers está localizado no 1101 Kirkbride Drive, Danvers, MA 01923. Caso esteja procurando o cemitério do Danvers State Hospital (que não foi tocado pela construtura por ficar fora do perímetro, na parte baixa da Hathorne Hill), você pode encontrá-lo na 470R Maple St, Danvers, MA 01923, USA.

Entrada do cemitério. © John Gray


Fontes: Danvers Library / Danvers State Insane Asylum / Asylum Projects / History of Massachusetts