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Algumas diferenças entre Santa Muerte e La Catrina


É intrigante como a imagem de La Catrina tem sido confundida ou associada a da Santa Muerte em nossa cultura nos últimos anos. Apesar de serem representadas pela forma de uma caveira, elas surgiram em períodos distintos da história e com propósitos diferentes. Nesse artigo, eu trago um resumo sobre os significados destas duas figuras que são parte fundamental da cultura mexicana.

La Catrina


Mesmo que você não seja um grande entendedor do folclore e cultura mexicana, pré-hispânica e etc e tal, você com certeza já viu a figura de La Catrina em algum lugar. Dê uns anos para cá ela tem aparecido com uma nova roupagem em estampas de camisetas, tatuagens, canecas, desenhos, longa-metragens e todo tipo de arte possível e imaginável.

Mas, o que não é sabido por todos é que a Catrina original era bem diferente dessa imagem que temos hoje em dia.

As origens de La Catrina tem mais um apelo político, social e cultural do que religioso e remonta ao final do século XIX e início do século XX. Durante este período, ficaram populares algumas publicações que eram escritas pela classe média e que tinham como finalidade tecer críticas à situação cultural do país e à desigualdade social. Chamadas de “jornais de combate”, essas publicações traziam textos e sátiras acompanhadas por ilustrações de crânios e esqueletos envoltos em plumas, vestindo roupas de gala em festas da alta sociedade com o intuito de retratar a miséria e a hipocrisia da sociedade mexicana.

Foi por volta de 1910 que o ilustrador José Guadalupe Posada criou uma personagem que recebeu o nome de Calavera Garbancera (que mais tarde ficaria conhecida como "La Catrina").

(Garbancera é a palavra utilizada para designar as pessoas que deixaram de vender milho e passaram a vender grão-de-bico e que, apesar do sangue indígena, posavam de europeus, negando sua raça e sua cultura.)

La Calavera Garbancera, La Catrina original. 

O trabalho de Posada foi redescoberto nos idos de 1940 pelo muralista Diego Rivera (marido de Frida Kahlo) que deu à Calavera Garbancera sua roupa característica (até então ela era apenas um busto que usava um sombrero cheio de flores e plumas, como vemos na imagem acima) e a batizou de “La Catrina”, o equivalente feminino dos “catrín” — termo espanhol que pode ser traduzido como “dândi”.

Após a redescoberta de Diego Rivera (que foi eternizada em um mural famoso), "La Catrina" passou a ser vista como um símbolo da integração dos ideais pré-hispânicos e pós-coloniais. Pode-se dizer que ela também se tornou um dos símbolos da riqueza espiritual e cultural do México. Atualmente ainda é parte viva da cultura mexicana, dos seus usos e costumes.

Nuestra Señora de la Santa Muerte


A Nuestra Señora de la Santa Muerte, popularmente conhecida apenas como Santa Muerte ou Santísima Muerte, é uma figura sagrada que, como já diz o seu nome, personifica a morte. Ela, assim como La Catrina, é representada por uma caveira, com a diferença de que está coberta apenas por uma mortalha (que pode ser de diversas cores), eventualmente adornada com flores e contas. Normalmente é representada carregando consigo uma foice ou um globo, lembrando bastante a imagem que temos de um Ceifeiro ou Ceifador.

Diferente de La Catrina, la Santa Muerte não recebeu nenhuma nova roupagem ao longo dos seus séculos de existência, já que não se trata de uma "invenção". Trata-se de uma santa popular venerada no México.

Diferente de outros santos populares, a Santa Muerte não é considerada um espírito de uma pessoa morta. Como eu disse, seus devotos a cultuam como sendo a própria morte.

Embora as origens do culto à Nuestra Señora de la Santa Muerte ainda sejam incertas, pesquisadores e historiadores acreditam que ele surgiu de um sincretismo entre a religião mesoamericana e a cultura pré-colombiana. Sendo assim, não é de se estranhar que adorem uma santa (considerada uma deidade por alguns de seus devotos) que apesar de ser a personificação da morte, também está associada à cura, à proteção, ao bem estar financeiro e à garantia de um caminho para a vida após a morte.

É importante explicar que a morte tem um lugar importante na cultura mexicana. Para os mexicanos, a morte simboliza o renascimento, a renovação e também a igualdade. A morte não é tida como um fim amargo, mas como uma continuação dos ciclos naturais da vida. Tanto que no México, o Dia dos Mortos é celebrado com muita festa e pode-se dizer que é uma das datas mais populares e aguardadas do ano.

Por não ser uma santa reconhecida pela Igreja Católica, até o século 20 o culto à Santa Muerte era feito de forma clandestina, com rezas e outros ritos sendo realizados individualmente na casa de cada devoto ou em capelas escondidas. Já a partir do século 21, o culto começou a se tornar mais público, especialmente na Cidade do México. Atualmente, é um dos cultos que tem crescido mais rapidamente, tendo adeptos no México, em alguns lugares do Estados Unidos e também da América Central.

As origens de Santa Muerte e do seu culto é um assunto bastante interessante (e polêmico) e eu acredito que farei uma postagem unicamente sobre isto e sobre suas mais recentes associações com o tráfico de drogas em algum outro momento.

Conexões

Acredito que estas duas figuras se encontram na época da Revolução Mexicana, momento em que La Catrina passa a ter o mesmo significado que as caveiras tinham para os antepassados dos mexicanos — que é o mesmo que a Santa Muerte carrega consigo. Porém, por outro lado, acredito que hoje em dia, La Catrina é mais vista como uma espécie de memento mori, uma lembrança de que todos somos iguais perante a morte e que ela chegará para todos ao seu devido tempo.