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Carl Tanzler e a sua macabra obsessão

A história bizarra desse amor obsessivo envolvendo o radiologista alemão Carl Tanzler e o cadáver da jovem cubana-americana Maria Elena Milagro de Hoyos é uma daquelas que parece ser apenas fruta da imaginação de um escritor de contos de terror ou de romances sobrenaturais com pintadas de ficção científica. Mas, por mais fantástica e mórbida que seja, é uma história real que quase virou uma lenda urbana e que vem inspirando muitos escritores, historiadores, músicos e outros artistas ao longo das últimas décadas.


Carl Tanzler, nascido Georg Karl Tänzler no ano de 1877, desde sempre foi tido como um rapaz perspicaz e muito inteligente, por isso não foi levado a sério quando ainda em sua juventude disse ter visto a face da sua alma gême, uma jovem de cabelos escuros e olhos amendoados, que foi apresentada a ele em um sonho por uma parente que havia morrido há muito tempo. Ele jamais esqueceria do rosto da senhorita que havia visto em seu sonho.

Emigrou para os Estados Unidos com a sua esposa e suas duas filhas no final da década de 20 e estabeleceu-se em uma cidade chamada Zephyrhills, na Flórida. Mas não por muito tempo. No ano seguinte ele deixou sua família e se mudou sozinho para outra cidade também da Flórida chamada Key West.

Em abril de 1930 ele já trabalhava há algum tempo no Hospital da Marinha dos Estados Unidos em Key West, usando o nome Carl Tanzler von Cosel, quando conheceu Maria Elena Milagro de Hoyos (também conhecida apenas como Elena Hoyos), uma jovem que estava convalescendo de alguma doença que posteriormente foi diagnosticada como sendo tuberculose. Porém, assim que o radiologista colocou os olhos sobre ela, a reconheceu como sendo a mulher que havia visto em seus sonhos de menino. Em sua mente, aquela era a sua alma gêmea e sua missão era salvá-la da morte certa.

E ele fez tudo o que estava a seu alcance. Mesmo após a saída de Elena do hospital, ele continuou a visita-la na casa de seus pais e além de medicamentos, ele também levava presentes caros e ainda que a jovem não retribuísse aos sentimentos do cinquentão, ele constantemente declarava seu amor e devoção por ela.

Apesar de todos os esforços, Elena faleceu em meados de 1931. Como o apaixonado que era, Carl Tanzler fez questão de pagar por todas as despesas do funeral e até mesmo contratou um médico para a embalsamar. Com a permissão da família, mandou construir um mausoléu de pedra no cemitério de Key West, para onde o corpo de Elena foi remanejado. Apesar de acharem estranho tamanha devoção, não imaginavam que o comportamento do apaixonado se tornaria ainda mais bizarro.

Mausoléu construído para Maria Elena Milagro de Hoyos. Créditos: Florida Keys Public Library.
Carl era o detentor da única chave que abria o mausoléu e passava noites e mais noites conversando com Elena, fazendo serenatas e levando presentes. Acredita-se que tal comportamento persistiu por quase 2 anos. Quando os moradores da cidade ficaram sabendo daquele comportamento tão mórbido, rumores doentios começaram a se espalhar.

Após transportá-la para dentro de uma espécie de carcaça de avião que ele usava como laboratório, bem próximo ao hospital onde trabalhava, os boatos ficaram ainda piores e ele acabou sendo demitido e teve que levá-la para a sua casa. Mas, nisso ele já tinha providenciado alguns "acertos" para melhorar as condições do corpo de Elena que já estava em avançado estágio de decomposição. Ele uniu os ossos soltos com fios de arame, encheu a cavidade abdominal e torácica com trapos, colocou olhos de vidro nas cavidades oculares, mandou tecer uma peruca feita com os cabelos remanescentes da falecida e recobriu a pele em decomposição com tiras de tecido fino e resistente embebidos em cera e outros compostos químicos como em um elaborado processo de mumificação. Com o corpo preparado, ele vestiu sua "noiva" com um belo vestido de seda e colocou alguns adornos. Nada, nenhum detalhe ficou faltando.

O corpo mumificado de Elena Hoyos em velório aberto ao público após o julgamento de Carl Tanzler.
Durante os sete anos seguintes, Carl “conviveu” o cadáver mumificado de Elena. Porém, os rumores acerca das suas excentricidades continuavam a espalhar-se por toda a pequena cidade de Key West. Muitos diziam tê-lo visto bailando com uma boneca em tamanho natural na sala de sua casa, no cair da noite. Outros diziam que ele havia construído aquela espécie de avião para atravessar a estratosfera com sua amada, afim de rejuvenescê-la.

Tanto falaram que os boatos chegaram aos ouvidos de Florinda, uma das irmãs de Elena. Mesmo achando que era apenas um boato, ela resolveu tirar suas dúvidas em uma visita informal ao velho conhecido da família e acabou confirmando que o cadáver de sua irmã estava naquela casa.

Bom, daí para a frente, foi aquele rebuliço. As autoridades foram chamadas, Carl foi detido, interrogado e examinado por psiquiatras. Incrivelmente, foi declarado mentalmente capaz e completamente ciente do que havia feito. Seu julgamento atraiu multidões e tornou-se o assunto das principais manchetes. Mesmo assim, Carl não ficou intimidado e continuou declarando seu amor e devoção por Elena, além de confirmar o boato sobre o avião, o que dividiu a opinião pública, por mais incrível que pareça.

Porém, na época em que foi julgado, o crime de profanação de túmulo já havia “prescrito” e o caso teve que ser abandonado. Carl Tanzler deixou a cidade, escreveu sua autobiografia e permaneceu recluso, vivendo praticamente às custas de ajuda dos seus familiares, até ser encontrado sem vida em sua casa em 1952. As autoridades encontraram o seu corpo caído no chão de uma sala, entre um dos seus órgãos e exames revelaram que ele estava morto há pelos menos três semanas.

Em seu quarto, uma boneca de cera em tamanho real, esculpida a forma e semelhança da jovem que ele amara e a quem fizera juras de amor eterno, silenciosamente esperava reencontrar o seu amante ou quem sabe, o seu destino final.