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Review | Jogo Perigoso (2017)

Em Jogo Perigoso (Gerald’s Game), filme baseado em obra homônima de Stephen King, o enredo gira em torno do casal Jessie e Gerald Burlingame que resolvem passar um fim de semana em uma casa isolada, no meio do mato, para tentar resolver seus problemas na cama. Eles só não contavam com um terrível imprevisto.

Jogo Perigoso Geralds Game Review

Produzido pela Intrepid Pictures e distribuído pela Netflix, Jogo Perigoso, que estreou no catálogo do serviço de streaming no último 29 de setembro, é mais uma daquelas agradáveis surpresas. Eu, normalmente, não espero boas produções quando se tratam de filmes com o selinho original da Netflix, mas tanto este título quanto 1922 (leia a resenha aqui), deixaram-me bastante satisfeita.

Eu não cheguei a ler o livro que deu origem ao filme, mas ouvi dizer que não é uma das melhores obras de Stephen King. Talvez seja uma daquelas histórias que ficam melhor nas telas do que no papel (o oposto de 1922).

SPOILER À VISTA!

Jogo Perigoso começa com Jessie (Carla Gugino) e Gerald (Bruce Greenwood) arrumando as malas para uma viagem de fim de semana, para uma casa em um lugar bastante remoto e incrivelmente bonito. Gerald, um advogado bem-sucedido, tinha preparado tudo: a geladeira estava cheia, tudo estava limpo e organizado. Jessie parece estar um pouco deslocada, porém nem desconfia do que o seu marido de longa data tinha planejado para que pudessem resolver seus problemas conjugais, mais exatamente aqueles problemas na cama.


Nas cenas seguintes, fica claro o motivo do casal não se entender entre quatro paredes. Gerald, ao que tudo indica, tem "gostos peculiares", que são revelados à sua esposa naquele início de tarde. Não que ele não tivesse dado pistas anteriormente, mas ela parecia ter ignorado ou apenas não acreditado que estava casada há mais de uma década com um homem com aquele tipo de "fetiche".

Então, achando que sua esposa iria curtir o lance, o advogado a algema à cabeceira da cama após tomar dois daqueles comprimidos azuis para ajudá-lo a ficar pronto para a ação e tenta mostrar à sua esposa o que realmente o agrada. Mas, ela não é nenhuma Anastasia Steele e, por todos os céus, que agonia me deu quando enquanto ela pedia para ele parar com aquela brincadeira que estava deixando-a constrangida! Felizmente, ele parou, porém, recusou-se a tirar as algemas dela, mesmo quando o clima já havia sido quebrado, mesmo enquanto discutiam as "peculiaridades" de Gerald e lavavam a roupa suja do casal.


O que não esperavam é que ele teria um infarto fulminante e morreria de um minuto para o outro, a deixando presa. Ah! Que enquadramento perfeito! E que agonia!

Na verdade, daí para frente, é agonia atrás de agonia e uma corrida contra o tempo. Afinal, quanto tempo Jessie aguentaria ficar sem morrer desidratada (ou devorada por um cão faminto)? Ela precisava agir rápido. Então, após algumas horas da morte do seu marido, se vendo nessa situação de vida ou morte, ela começa a ser confrontada pela sua própria mente no que parecem ser alucinações. Faz sentido, ela não queria morrer e sabia que isso seria inevitável se não encontrasse uma saída.

É incrível como mergulhamos, mais uma vez, no aspecto psicológico da personagem que justifica completamente os seus medos e as suas ações.

E nesse mergulho profundo, Jessie tem que encarar alguns fantasmas, desenterrar alguns segredos que mantinha escondido e trancado a 7 chaves lá no fundo da sua mente. Situações traumáticas, promessas feitas quando ela ainda era uma garotinha e que, sem que ela percebesse, tinham a mantido presa por muito tempo e que certamente eram as respostas para a pergunta que havia feito para seu marido pouco antes dele morrer. Como ela e seu marido haviam chegado àquele ponto? E, posteriormente, como tinha ido parar naquela cama, algemada, com seu marido morto caído aos pés da cama, com um cachorro de rua devorando seu cadáver e louco para dar umas mordidinhas em seu pé também.

Cenas de "Jogo Perigoso". O Homem do Luar à esquerda e Jessie à direita. 
Como se não bastasse tudo isso, ainda é assombrada por uma figura que aparece em seu quarto durante a noite. Sim, os pombinhos tinham deixado uma porta aberta na ânsia de resolverem seus problemas. Essa figura monstruosa é chamada de O Homem do Luar, interpretado por ninguém mais e ninguém menos do que Carel Struycken (famoso por interpretar o gigante de Twin Peaks e também o Tropeço de A Família Addams).

Abro um parêntese aqui para falar sobre a escolha de elenco que foi muito bem acertada. Não são interpretações dignas de um Oscar, mas Carla Gugino, Bruce Greenwood e até mesmo a jovem Chiara Aurelia, foram bastante convincentes em seus papéis.

O desfecho dessa história é surpreendente e perturbador, porém, não havia outra saída para Jessie. Aconselho o pessoal que tem o estômago mais fraco providenciar um saquinho de papel ou algo parecido, porque é cheia de cenas horripilantes, de revirar o estômago de verdade ou de arrancar uns bons gritos.

Porém não são cenas aleatórias, são cenas necessárias, com a dose de sangue e perturbação na medida certa. Afinal, o que era para ser uma brincadeira sexual, havia virado um jogo de sobrevivência. E cá para nós, também um jogo de autoconhecimento.

Jogo Perigoso, sem dúvidas tem tudo para virar um dos clássicos desse tipo de terror psicológico, não só pelo enredo, mas também pela direção, pelo elenco, pela fotografia, pelas câmeras, efeitos de iluminação e, principalmente, pelos diálogos que levam o telespectador para uma viagem de encontro com seus próprios medos e segredos mais obscuros.



Ficha Técnica:

Título (Título Original): Jogo Perigoso (Gerald's Game)
Direção: Mike Flanagan
Roteiro: Mike Flanagan e Jeff Howard
Elenco: Carla Gugino, Carel Struycken, Bruce Greenwood, Chiara Aurelia, Henry Tomas, Kate Siegel
Data de estreia: 29 de setembro de 2017
Idioma original: Inglês
País: Estados Unidos