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Danse Macabre | A última dança

Existem poucas coisas que são certas na vida. Uma delas, é de que da escuridão do útero nós viemos e para a escuridão do túmulo (ou de um caixão) nós voltaremos. A outra é de que a Morte não faz distinção, não tem qualquer respeito por posição na sociedade, idade, religiosidade, questões morais ou espirituais; ela pode chegar a qualquer momento, de qualquer forma, para qualquer ser vivo.

Parte de uma das muitas reproduções da Danse Macabre que pode ser encontrada em Basel, Suíça.

E desse entendimento da universalidade e da imparcialidade da Morte foi que surgiu a famosa Danse Macabre (Dança Macabra ou Dança da Morte, em português), expressão artística alegórica que teve seu início na França do século 14 (ou seja, na Idade Média).

A Danse Macabre, em seus primórdios, podia ser mais encontrada em pinturas em murais de igrejas, xilogravuras e afrescos, onde pode-se ver a representação do que seria uma espécie de dança (ou procissão), onde pessoas “vivas” são conduzidas pela Morte (representada, por sua vez, por esqueletos ou corpos em decomposição) ao seu destino, sem distinção de hierarquia ou classe social. Todos estavam juntos na dança final.

Veja bem, meu leitor, como eu disse, era Idade Média. Havia a supremacia da Igreja e os nobres que se sobrepunham às classes sociais mais baixas. Mas, independentemente de quem fossem ou deixassem de ser, estas pessoas tinham encarado a morte em algum momento nos últimos anos, fosse por causa da Peste Negra, fosse por causa da Guerra dos 100 Anos, fosse por causa da fome ou por falta de uma boa política de saneamento básico. Esses horrores mortais foram culturalmente assimilados em toda a Europa medieval.

Essa certeza da morte que poderia ser súbita e/ou dolorosa, aumentava a procura por penitências religiosas, mas por outro lado, também evocava um desejo louco por diversão, por uma última dança.

E esta última dança, a dança com a Morte, é bela e sombriamente representada pela Danse Macabre, que também não deixa de ser um tipo de memento mori, uma lembrança de que somos mortais, de que todos vamos morrer.

Onde encontrar a Danse Macabre

Não é minha intenção tornar esse um daqueles posts que encontramos a rodo pela internet, com mil datas e nomes. Mas, a título de conhecimento, acho interessante saber onde encontrar a Danse Macabre, especialmente nos dias de hoje.

Danse Macabre abaixo dos arcos no
Cimetière des Innocents
O exemplo mais antigo e conhecido de Danse Macabre é uma série de afrescos feitos entre 1424 e 1425 no extinto Cimetière des Innocents em Paris, onde podia-se ver que a morte (representada por esqueletos e corpos) conduzia os vivos, naquela espécie de dança, até o destino final. Infelizmente, o original desta obra foi destruído em 1699, mas uma reprodução em xilogravura, produzida em 1485 pelo tipógrafo parisiense Guy Marchant, ainda pode ser encontrada.

Todos os outros trabalhos artísticos visuais que vieram depois foram direta ou indiretamente derivados deste do Cimetière des Innocents, como o famoso Totentanz de Bernt Notke que ficava na Igreja de Santa Maria em Lübeck (e que também foi destruído por uma bomba durante a 2ª Guerra Mundial) que você pode ver aqui nesse link.

Em 1929, o conceito da Danse Macabre ganhou uma nova roupagem em uma animação bastante...curiosa, produzida por nada mais e nada menos do Walt Disney. The Skeleton Dance (A Dança do Esqueleto) é o primeiro episódio de uma série de animações intitulada Silly Symphony e que você pode assistir logo mais abaixo, no final desse post.

Mas, ainda que a Danse Macabre tenha tido suas origens nas artes visuais, podemos encontra-la também na música.

Eu acho que poderia citar uma meia dúzia de músicos e bandas que eu conheço e tem ao menos uma música ou um álbum que leva esse nome (ou correlato, como Dance of Death ou Totentanz) ou que tem a Danse Macabre como tema. Acho que o registro mais recente é uma música da banda Ghost que leva o nome de Dance Macabre. Mas, a primeira vez que o conceito da Danse Macabre apareceu em uma música foi lá em 1598, numa composição chamada Mattasin oder Toden Tanz, de August Nörminger. Uma obra bastante famosa é a do francês Camille Saint-Saëns. Intitulada somente Danse Macabre, vem sendo utilizada em diversos games e episódios de séries, até os dias de hoje.

Particularmente, eu indico o álbum Danse Macabre de Zbigniew Preisner, que serviu como fundo musical enquanto escrevia a primeira parte deste post.

Espero que tenham gostado.

Até a próxima.

The Skeleton Dance