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A Lenda do Poço de Okiku

Que as histórias japonesas sobre fantasmas e outras criaturas sobrenaturais são as mais loucas e pavorosas, isso não é nenhuma novidade. E como sou legal, hoje eu trago para vocês uma lenda muito famosa no Japão que teve seu título traduzido como O Poço de Okiku (Okiku-ido), mas também é conhecida como A Virgem do Poço.

O verdadeiro Poço de Okiku, situado aos pés do Castelo de Himeji, no Japão.

A Lenda do Poço de Okiku (Okiku-Ido)

No começo da idade média, Kodera Norimoto era o senhor do Castelo de Himeji e um dos seus regentes era o maquiavélico Aoyama Tetsuzan. Mas, além dele, Norimoto também tinha servos fiéis e honestos, como era o caso da bela Okiku.

Tudo corria bem, dentro dos conformes, até que certo dia Okiku ouviu Tetsuzan falando com seu filho sobre um plano para matar Norimoto e tomar o castelo para si. Naquele momento, ela soube que tinha que fazer alguma coisa para impedir tal levante, então ela confiou em seu amado Kinugasa Motonobu, um guerreiro valente e fiel à Norimoto.

Motonobu e seus aliados prometeram a ela que tudo ficaria bem, que Tetsuzan não conseguiria o que pretendia. Mas, para isso, precisavam de alguém acima de qualquer suspeita que pudesse ficar de olho nos passos de Tetsuzan. E a jovem Okiku ofereceu-se para ser a espiã infiltrada dentro da casa da Família Aoyama, passando-se por criada.

Castelo de Himeji
De fato, suas informações foram de extrema importância. Norimoto conseguiu fugir da cidade antes do ataque e por isso Aoyama assumiu o controle do castelo. Porém, começou a ficar desconfiado que alguém tinha alertado Norimoto sobre o ataque. Mas quem? Quem era o traidor? Estaria ainda entre eles?

Todos seriam testados, todos os guerreiros e aliados deveriam ser interrogados. Bom, exceto aqueles que haviam desertado, como era o caso de Motonobu.

Foi quando o guerreiro Chonotsubo Danshiro, até então aliado de Okiku, resolveu se aproveitar da situação porque estava apaixonado por ela. Então fez uma proposta para lá de indecente que se resumia em "deite-se comigo e seu segredo estará preservado". Mas, Okiku era esperta e sabia que se a dedurasse, ele estaria colocando a sua própria vida em risco. Sendo assim, ela não aceitou a proposta e o mandou às favas.

Porém, Danshiro era um homem que não aceitava um “não” como resposta. Tratou de bolar um novo plano, uma nova oferta que Okiku não pudesse rejeitar. E como ela tinha feito anteriormente com os Aoyama, Danshiro começou a seguir seus passos, observar sua rotina.

Foi quando descobriu que ela era uma das criadas responsáveis por limpar uma série de pratos dourados que faziam parte da coleção de tesouros herdados da família Kodera. Então, quando a esposa de Aoyama deu por falta de um dos dez pratos, os criados do castelo foram interrogados e todos foram unanimes em dizer que Okiku era a responsável pela limpeza deles.

Sendo assim, Aoyama a chamou e explicou a gravidade da sua situação. Incrédula com o que estava acontecendo, ela foi à sala onde os pratos estavam dispostos e contou e os recontou. Realmente, faltava um prato e ela não conseguia imaginar como ele havia simplesmente desaparecido; só sabia que precisava encontrá-lo o quanto antes afim de não ser julgada por um crime que não cometeu.

Enquanto ela procurava aflita pelo prato que faltava, Danshiro a reencontrou e dessa vez ele tinha uma nova proposta: caso ela se casasse com ele, ele devolveria o prato que ele havia retirado da coleção. Caso não, ela seria acusada de roubo. E novamente Okiku se recusou. Seu coração já pertencia a Motonobu.

O prazo dado à Okiku chegou ao final e sem conseguir encontrar o prato e devolvê-lo à coleção, foi julgada e condenada à morte. Antes que Motonabu pudesse souber da traição de Danshiro, Okiku foi torturada e executada como uma criminosa. Seu corpo foi jogado dentro do poço situado numa praça chamada Kamiyama-zato-maru, dentro dos domínios do Castelo de Himeji.

Mas a história não termina por aqui, não...


Reza uma das lendas que na noite após seu corpo ter sido atirado dentro do poço, seu espírito rastejou para fora dele e passou a atormentar Danshiro, contando em voz alta o número de pratos dourados e caindo num choro de arrepiar os cabelos dos mais valentes após contar o número 9.

Tempos depois, Motonobu e os fiéis aliados de Norimoto conseguiram tomar de volta o castelo, destruindo Aoyama e seus guerreiros. Mas, Okiku não estava mais lá e nem em lugar algum. Antes de morrer, enlouquecido pela culpa e pelo fantasma de Okiku, Danshiro confessou o seu crime. Em reconhecimento à sua lealdade, amor e coragem, erigiram um altar em memória à Okiku no santuário de Jyuni-sho.

Mas, nem assim Okiku conseguiu descansar em paz. Quando foi brutalmente assassinada e jogada dentro daquele poço sob acusação de roubo, teve sua alma condenada a, talvez, nunca descansar.

De acordo com relatos de visitantes, ainda nos dias de hoje é possível ouvir a voz chorosa de uma jovem mulher contando de 1 a 9 aos arredores do poço em que o corpo de Okiku foi lançado. É dito também que às vezes seu fantasma pode ser visto, vestindo um longo vestido branco, com sua cabeleira longa e escura cobrindo parcialmente o seu rosto. Inclusive, dizem que o filme O Chamado (Ringu, no original japonês), foi inspirado na lenda dessa criada que foi injustamente acusada e jogada dentro do poço. Os famosos “7 dias” seriam referentes ao tempo que ela teve para dar conta do prato roubado.

O mais curioso e sinistro é que após uma revitalização do castelo e de seus arredores, o poço foi fechado permanentemente com uma grade de metal e baixas colunas de concreto foram instaladas em volta do poço de forma que o turista curioso possa dar uma olhada para dentro dele, mas o que quer que esteja lá dentro não possa olhar para fora.


Fonte principal: http://www.city.himeji.lg.jp/guide/castle_en/_39896/_39905.html